| Posters | Videos | Games | Soccer Mags | Books | Products |
| Torcedores e clubes homenageiam Didi Foram 17 dias de luta, mas ontem o futebol brasileiro perdeu seu "Mestre". Aos 72 anos, Didi morreu às 9h30m, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, de falência múltipla do órgãos e insuficiência respiratória, em decorrência de um câncer no fígado. O velório do ex-craque aconteceu na sede de General Severiano e contou com a presença de centenas de fãs, amigos e parentes. O caixão de Didi ficou coberto com bandeiras do Botafogo e do Fluminense, clubes que defendeu. O enterro será hoje, às 13h, no São João Batista. - Ele conversou comigo ontem e parecia bem. Aí hoje pela manhã tivemos a notícia. Foi uma morte tranqüila, da mesma forma como ele sempre viveu - lembrou a filha Rebeca, de 44 anos. O ex-zagueiro Brito, campeão mundial em 70, esteve no velório e, emocionado, lembrou da velha amizade com Didi. - Ele foi um exemplo para mim. Uma pessoa maravilhosa e, como jogador, nem é preciso falar. Quem viu sabe o craque que perdemos. O presidente do Botafogo, Mauro Ney Palmeiro decretou luto oficial de cinco dias no clube e disse que Didi será homenageado com um busto na sala de troféus. - Eu era garoto e estava aqui quando Didi chegou ao Botafogo, trazido pelo João Saldanha. Ontem, ao saber da morte de Didi o prefeito Cesar Maia anunciou que o entorno da área do Maracanã receberá o nome do craque, que marcou o primeiro gol da história do estádio, em 1949. As homenagens a Didi não ficarão restritas ao Brasil. A diretoria do Real Madri anunciou que o time vai enfrentar hoje o Espanyol com uma tarja preta no uniforme. O craque atuou pelo clube espanhol em 1959. Além disso, o telão do Estádio Santiago Bernabéu vai exibir imagens do jogador em ação. Em Lima, antes do clássico entre Alianza e Sporting Cristal, pelo Campeonato Peruano, Didi também será homenageado, pois é um dos maiores ídolos do futebol no país. Ele foi o treinador da equipe que chegou às quartas-de-final da Copa do Mundo de 1970, no México, o melhor resultado dos peruanos em mundiais. A morte de Didi foi noticiada pelos sites de vários jornais do mundo, principalmente nos países onde o ex-craque jogou ou trabalhou como treinador. O texto do peruano El Mercúrio exalta a qualidade que Didi exibia nos gramados. O Olé, da Argentina, onde Didi comandou o River Plate em 71 e 72, também divulgou a morte e frisou que ele, ao lado de Pelé e Garrincha, formou um dos trios do futebol mundial. Até os grandes mestres e gênios como Didi têm seus momentos de simples mortais. Foi assim com o fluminense Valdir Pereira, de 72 anos, o inventor da folha-seca aquela bola que descrevia uma curva fantástica , na cobrança de falta, e caía no ângulo, inalcançável para os goleiros e autor de frases célebres no futebol brasileiro. E que faz parte do exclusivo hall da fama do futebol, na sede da Fifa, em Zurique. A história desse mestre do futebol começou no Goytacaz, de Campos, sua terra natal. Enquanto o planeta fervilhava com a 2 Guerra Mundial, em 1944, um garoto de 16 anos já encantava com seu talento e elegância. Foi nesse ano que ele chegou ao Rio, para vestir a camisa do Madureira. Ficou só uns meses e arriscou-se numa empreitada no interior paulista, em Lençóis, onde se tornou profissional. Em 1946, estava de volta ao Madureira, que tinha um quarteto inesquecível: Isaías, Lelé, Jair e Esquerdinha. Em 1949, por 500 mil cruzeiros, foi vendido para o Fluminense. Ele não chegou a atuar na Copa de 1950, mas inscreveu seu nome na história do Maracanã. Foi dele o primeiro gol no estádio recém-construído, num amistoso entre as seleções carioca e paulista. Em 1952, sua estréia na seleção com o título pan-americano. Didi só vestiria a camisa da seleção brasileira pela primeira vez em 1952, quando o Brasil tornou-se campeão pan-americano, no Chile. Em 1954, participou de seu primeiro Mundial, no qual o Brasil foi eliminado pela poderosa Hungria, de Puskas e companhia. Por dois milhões de cruzeiros, o Botafogo tirou Didi do Fluminense, em 1955. No alvinegro, ao lado de Nílton Santos, Zagallo e Garrincha, entre outros craques, ele ganhou vários títulos. Mas foi em 1957, pela seleção brasileira, que a sua já brilhante carreira ganhou contornos definitivos. Foi com um gol de falta contra o Peru que seu futebol melhorou de cotação. Didi disputava a posição no meio-campo com o novato Moacir, do Flamengo, que sempre se destacava nos treinos. Mas o mestre acabou tomando conta da camisa 8 da seleção, soltando, de quebra, uma frase que hoje faz parte do folclore do futebol: Treino é treino, jogo é jogo. Tinha razão. Didi viveu os anos de glória do futebol brasileiro. Chegou a ter uma passagem rápida pelo Real Madri, em 1959, mas voltou ao Brasil nos braços da torcida do Botafogo. Foi também em 1959, pela seleção brasileira, que surgiu uma outra faceta do mestre: ficou famosa uma foto de Didi dando uma tesoura voadora em vários uruguaios numa briga generalizada contra os velhos rivais. Bellini estava apanhando de quatro. Eu tinha de parar aquela covardia explicou. Aos 33 anos, a consagração com o bicampeonato no Chile A equipe brasileira que ganhou a Copa de 1962 era quase a mesma de 1958, mas com média de idade que ultrapassava os 30 anos. O próprio Didi já tinha 33. Aí surgiu outra frase célebre do mestre: Quem tem de correr é a bola, não o jogador ensinava Didi, lembrando que já não era mais um menino para se desgastar. Como treinador, Didi foi um andarilho. No Brasil, treinou três times: Fluminense, Botafogo e Cruzeiro. No tricolor, com sua fala macia mas convincente, fez da Máquina montada por Francisco Horta, com Rivelino e cia., um time respeitável. Esteve também na Argentina, treinando o River Plate, onde de uma vez só barrou todas as estrelas do time, que não queriam se empenhar. Ousado, lançou os juvenis e foi campeão. Esteve na Turquia e na Arábia Saudita. Mas foi no Peru, dirigindo a seleção do país, que viveu uma grande emoção: enfrentar o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1970, no México. O último time que dirigiu foi o Alianza, de Lima. Escapou da morte por pouco: por razões médicas, pediu uma licença 20 dias antes de um acidente aéreo que mataria toda a equipe. A morte que, ontem, ele não conseguiu driblar. Didi foi fonte de inspiração de muita gente. Nelson Rodrigues escreveu que quem via Didi andando ou jogando pensava que ali estava um príncipe etíope. Armando Nogueira dizia que seus passes eram como o olhar melífluo de Capitu. Elegância, por sinal, era a marca registrada de Valdir Pereira. Nem mesmo a bengala que o acompanhava ultimamente lhe tirava o porte majestoso. Jogando ou usando seus ternos de boa qualidade, um hábito que aprendeu a cultivar em sua passagem pelo Real Madri, Didi era acima de tudo elegante. E também um líder. De fala mansa e pausada, ele conseguia tudo que queria. Na Suécia, na disputa da Copa de 1958, Didi teve participação decisiva na conquista do primeiro título mundial para o Brasil, dentro e fora de campo. A seleção começou insegura, cambaleante, livrando-se por pouco de uma derrota para a Inglaterra, num jogo que terminou sem gols. Foi aí que jogadores mais experientes, entre eles Didi, resolveram tomar uma posição. O próprio Didi, anos mais tarde, contou a pitoresca história: - Convencemos o técnico Vicente Feola a colocar Pelé no lugar do Dida, que sentia uma contusão. Feola temia lançar Pelé, que tinha apenas 17 anos, mas concordou. Também pedimos que ele escalasse Garrincha no lugar de Joel. Feola nos atendeu, o time embalou e fomos campeões - revelou Didi. Foi na decisão desse mesmo Mundial que Didi mostrou um outro lado muito importante de sua personalidade: o sangue-frio. Quando a Suécia fez 1 a 0, na finalíssima, ele botou a bola embaixo do braço e, indo em direção ao meio-campo, gritou com os companheiros: - Vamos lá, acabou a moleza, vamos encher esses gringos de gols... Como treinador, também teve experiências fantásticas e angustiantes. Como dirigindo a seleção do Peru contra o Brasil, na Copa de 1970, no México. Uma grande emoção: - Foi muito difícil dirigir os peruanos. Eu não sabia como agir. Aí o Brasil venceu por 4 a 2. Fiquei aliviado - lembrou numa entrevista. Didi sempre foi homenageado. Em 1995, quando o Maracanã comemorava seu 45º aniversário, foi ele quem apagou as velinhas. Cabelos brancos, impecavelmente vestido de terno e gravata, com a inseparável bengala, aquela figura que sugeria a nobreza destacada por Nelson Rodrigues marcava sua presença. Em 16 de julho de 2000, outra homenagem no Maracanã, que completava 50 anos: Didi, amparado por amigos, deixou marcados seus pés no hall da fama. Pés que começaram e ajudaram a construir a fama do estádio e as maiores glórias do velho e bom futebol brasileiro. Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, em 1957. Brasil e Peru empatavam em 0 a 0 no Maracanã quando surgiu uma falta na entrada da área peruana. Didi tomou pouca distância, como quem não queria nada. E caminhou para a bola, também como quem não queria nada. A barreira de cinco homens, armada mais para o lado esquerdo do goleiro peruano, indicava que o ideal seria a cobrança de um canhoto. Mas Didi bateu. O chute saiu alto e Asca relaxou. Imóvel, achando que a bola sairia, ele acabou observando a estranha trajetória. A bola subiu, subiu e desceu, caindo no canto esquerdo, dentro de seu gol, como se fosse uma folha-seca. Um a zero, Brasil classificado e daí a origem do termo que se tornou quase um sinônimo de Didi. A história da folha seca é curiosa. Estava com o tornozelo direito machucado e nos treinos, para não ficar longe da minha velha companheira, ficava batendo bola com os goleiros do Fluminense. Sem poder firmar o calcanhar, batia na bola com o pé inclinado, com o lado externo, sempre à meia-força. A bola pegava um efeito incrível. Como uma folha-seca, ela caía. Procurava ficar de lado para a bola e o efeito aumentava ainda mais lembrou o mestre, num dos milhares depoimentos que deu ao longo da vida. Habilidoso e elegante, Didi conhecia como ninguém os segredos e as manhas da bola. Sempre de cabeça erguida, com um toque sutil, de curva, o mestre conseguia descobrir um companheiro bem colocado, deixando-o de frente para o gol. Assim foi com Vavá, nas Copas de 1958 e 1962; assim foi com Quarentinha, Amarildo e tantos outros no Botafogo. Em 1956, com a transferência do Fluminense para o Botafogo, Didi encontrou seu verdadeiro destino. O clube, segundo ele, deu-lhe muita sorte. Falar em Didi é falar no Botafogo e vice-versa. O clube tornou-se uma de suas grandes paixões, assim como sua mulher, Guiomar, e as filhas Rebeca e Lia, além do filho Bibi, ex-jogador, fruto de seu primeiro casamento. O Botafogo venceu o Fluminense por 6 a 2 e conquistou o campeonato. Saí do jogo e fui cumprir a promessa que fiz para Nosso Senhor do Bonfim: andei do Maracanã até a General Severiano. Achei que no meio daquela confusão ninguém perceberia minha presença. Quando olhei para trás, acho que havia umas cinco mil pessoas me seguindo.
Source: O Globo |